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Rock

Motörhead: a banda que Lemmy montou depois de ser demitido do Hawkwind

Poucas bandas conseguiram ser tão reconhecíveis com tão poucos elementos: um baixo distorcido feito guitarra, um vocal rouco cantando de baixo para cima num microfone alto demais e um mascote de presas tortas. O Motörhead durou quarenta anos fazendo basicamente a mesma coisa — e conseguiu que isso nunca soasse preguiça.

Lemmy Kilmister tocando baixo ao vivo com o Motörhead
Lemmy Kilmister e o Rickenbacker distorcido que fazia o baixo do Motörhead soar como guitarra.

Maio de 1975, fronteira do Canadá

Ian Fraser Kilmister tocava baixo no Hawkwind, banda de rock espacial britânica, quando foi detido na fronteira com o Canadá por porte de drogas. A banda o demitiu.

Ele voltou para Londres sem emprego e com uma ideia bem definida do que queria fazer em seguida: uma banda mais rápida e mais alta que qualquer coisa que estivesse tocando na Inglaterra naquele momento.

O primeiro nome cogitado era Bastard. O empresário deixou claro que ninguém colocaria aquilo na televisão britânica.

O nome veio da última música que ele escreveu no Hawkwind

"Motorhead" foi a última composição de Lemmy para a banda anterior. Ele levou o título junto na saída — e acrescentou o trema.

O trema não muda a pronúncia nem significa nada em alemão. Lemmy sempre disse que estava ali por um único motivo: ficava mais ameaçador. A ideia colou tanto que virou moda no metal — Blue Öyster Cult e Mötley Crüe fizeram o mesmo tipo de brincadeira tipográfica.

A formação inicial, em 1975, tinha Larry Wallis na guitarra e Lucas Fox na bateria. Nenhum dos dois ficou muito tempo.

A formação clássica e os discos que a construíram

Entre 1976 e 1982, o Motörhead foi um trio: Lemmy no baixo e voz, "Fast" Eddie Clarke na guitarra e Phil "Philthy Animal" Taylor na bateria. É esse time que aparece em toda lista de "melhores formações do metal".

A escalada nas paradas britânicas conta a história melhor que qualquer texto:

Álbum Ano Melhor posição no Reino Unido
Overkill 1979 24º
Bomber 1979 12º
Ace of Spades 1980 4º
No Sleep 'til Hammersmith 1981 1º

Quatro discos, dois anos, do 24º ao topo. E o que chegou em primeiro lugar foi um álbum ao vivo — o que diz tudo sobre onde essa banda realmente funcionava.

A formação clássica do Motörhead
O trio clássico do Motörhead: Lemmy, "Fast" Eddie Clarke e Phil "Philthy Animal" Taylor.

Snaggletooth, o mascote que virou tatuagem

Em 1977, o artista Joe Petagno recebeu um briefing de Lemmy: algo entre um robô enferrujado e um cavaleiro andante de armadura.

O que voltou foi um crânio meio cão, meio gorila, com presas descomunais de javali, correntes, uma cruz de ferro e espinhos. Lemmy deu um único palpite — sugeriu mudar os chifres de lugar, colocando-os na boca. Ficou assim para sempre.

O desenho estreou na capa do álbum de estreia, Motörhead, em 1977. Petagno definiria a criatura anos depois como "o símbolo anti-tudo definitivo".

É um dos raríssimos logos de banda que sobrevive sem o nome ao lado.

"We are Motörhead and we play rock and roll"

A frase abria os shows há décadas, sempre igual, e é a chave para entender a teimosia de Lemmy.

We are Motörhead and we play rock and roll.

O mundo inteiro classificava a banda como heavy metal — e ela realmente influenciou metade do thrash que veio depois, do Metallica ao Anthrax. Lemmy nunca aceitou o rótulo. Para ele, aquilo era rock and roll, só que tocado no volume errado.

Havia lógica nisso. As referências dele eram Little Richard, Chuck Berry e os Beatles, não Black Sabbath. O que o Motörhead fez foi pegar a estrutura simples do rock dos anos 1950 e tocá-la com a velocidade e a sujeira do punk, três anos antes de o punk virar assunto de jornal.

Quarenta anos em números

A banda nunca parou. Não teve hiato, não teve reunião de retorno, não teve turnê de despedida. Só disco e estrada.

  • 24 álbuns de estúdio ao longo de quatro décadas
  • Mais de 25 milhões de discos vendidos no mundo
  • Um Grammy, em 2005, na categoria Melhor Performance de Metal — pela versão de "Whiplash", do Metallica, gravada para um álbum-tributo

Sim: a única estatueta do Grammy que o Motörhead levou para casa foi por tocar uma música de outra banda. É um detalhe tão fora de esquadro que combina com eles.

28 de dezembro de 2015

Lemmy completou 70 anos em 24 de dezembro de 2015. Recebeu o diagnóstico de um câncer agressivo poucos dias depois e morreu em 28 de dezembro — o atestado apontou arritmia cardíaca, insuficiência cardíaca e câncer de próstata.

O Motörhead acabou naquele dia, sem discussão de substituto. Não havia banda sem ele.

Phil Taylor tinha morrido pouco mais de um mês antes, em novembro de 2015. Fast Eddie Clarke, o último sobrevivente da formação clássica, morreu em janeiro de 2018. Em pouco mais de dois anos, o trio de Ace of Spades inteiro se foi.

O que sobrou está em qualquer show de rock do planeta: a caveira de presas tortas estampada em costas de jaquetas de gente que nem era nascida em 1980.

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