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Rock

Deftones: como três skatistas de Sacramento inventaram o próprio gênero do metal

Tem banda de metal que entrou para a história abrindo caminho num gênero. Os Deftones entraram abrindo caminho para fora de um gênero — passaram a carreira fugindo do rótulo de nu-metal que a imprensa insistia em colar neles, até criarem um som que ninguém mais soube copiar.

Os Deftones em apresentação ao vivo em 2011
Chino Moreno e os Deftones: metal pesado com camadas de dream pop desde White Pony.

Sacramento, 1988

A banda nasceu num colégio de Sacramento, na Califórnia: Chino Moreno, Stephen Carpenter e Abe Cunningham estudavam juntos na C. McClatchy High School e dividiam a mesma cena de skate da cidade. Quando Moreno descobriu que Carpenter tocava guitarra, bastou chamar Cunningham para a bateria — os três passaram a se encontrar na garagem de Carpenter, por volta de 1988, só para tocar pelo prazer de tocar.

Por que ninguém sabia onde encaixar os Deftones?

O primeiro álbum, Adrenaline (1995), e o seguinte, Around the Fur (1997), chegaram no auge do nu-metal — a onda de bandas que misturava metal pesado com hip-hop e usava calças largas como uniforme. Os Deftones foram encaixados na cena por conveniência de gravadora e de imprensa, mas nunca se pareceram muito com ela: a voz de Chino Moreno alternava gritos com melodias quase suaves, e as guitarras de Stephen Carpenter buscavam uma textura mais densa e atmosférica do que o riff direto que dominava o estilo.

White Pony: o disco que separou os Deftones do resto do nu-metal

Em 2000 a diferença ficou impossível de ignorar. White Pony trocou a agressividade crua dos dois primeiros discos por camadas de shoegaze, dream pop e uma produção mais lenta e espaçosa — uma aposta arriscada bem no momento em que o nu-metal vendia milhões com a fórmula oposta. A faixa "Elite" resumia o equilíbrio: o trecho mais pesado que a banda já tinha gravado, encaixado dentro de um disco cheio de passagens quase hipnóticas.

Frank Delgado e Chino Moreno, dos Deftones, em show
Frank Delgado (discotecagem e teclados) e Chino Moreno: o equilíbrio entre peso e melodia que a banda consolidou a partir de White Pony.

Grammy, mas sem festa

"Elite" deu aos Deftones o Grammy de Melhor Performance de Metal, entregue em 2001. Não houve a reviravolta de imagem que normalmente acompanha esse tipo de prêmio: a banda continuou tratada pela crítica como uma anomalia dentro do nu-metal, ao mesmo tempo em que ganhava o respeito de quem vinha do rock alternativo e do metal mais pesado — dois públicos que raramente concordavam sobre a mesma banda.

O acidente que quase calou a banda

Em novembro de 2008, o baixista Chi Cheng sofreu um grave acidente de carro em Santa Clara, na Califórnia. Ele passou por cirurgia e entrou num estado mínimo de consciência, do qual nunca se recuperou. A banda não parou os trabalhos à toa: o álbum seguinte, Diamond Eyes, lançado em 2010, foi escrito e dedicado a ele — e chegou às lojas com Sergio Vega, amigo de longa data da banda, assumindo o baixo nas gravações e nos shows. Chi Cheng morreu em 13 de abril de 2013, aos 42 anos, depois de mais de quatro anos sob cuidados médicos constantes.

O que ficou, em números

Ano Marco
1988 Chino Moreno, Stephen Carpenter e Abe Cunningham começam a tocar juntos em Sacramento
2000 White Pony é lançado e redesenha o som da banda
2001 "Elite" vence o Grammy de Melhor Performance de Metal
2008 Chi Cheng sofre o acidente de carro que o deixou em estado mínimo de consciência
2010 Diamond Eyes chega às lojas dedicado a Chi Cheng
2013 Chi Cheng morre, aos 42 anos

A banda que nunca parou — e o que ela deixou

Depois do acidente, muita gente apostou que os Deftones não sobreviveriam como banda. Erraram. Saturday Night Wrist, de 2006, já tinha sido um disco gravado sob tensão interna, mas vieram depois Diamond Eyes (2010), Koi No Yokan (2012), Gore (2016) e Ohms (2020) — uma sequência de álbuns que raramente repete a própria fórmula, sempre equilibrando entre o peso dos primeiros discos e a atmosfera aberta por White Pony. Trinta e oito anos depois daquela garagem em Sacramento, a formação principal — Moreno, Carpenter, Cunningham e o tecladista Frank Delgado, na banda desde 1999 — segue na estrada.

O som que eles consolidaram em White Pony — pesado sem abandonar a melodia, melancólico sem perder a potência — é hoje um ponto de referência comum entre bandas de metal mais atmosférico e de rock alternativo pesado, mesmo quando elas não citam a banda diretamente como influência. Os Deftones nunca pediram desculpas por serem a banda errada para o rótulo errado.

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