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Rock

Gojira: a banda francesa que levou o death metal técnico para a abertura de uma Olimpíada

Tem banda de metal que passa a carreira inteira tentando chegar ao mainstream e nunca chega. O Gojira fez o caminho inverso: construiu um som técnico, pesado e pouco óbvio durante quase três décadas, sem suavizar nada para agradar rádio — e foi justamente esse som, sem concessão nenhuma, que a França escolheu para abrir os Jogos Olímpicos de Paris em 2024.

Banda Gojira tocando ao vivo
Gojira em apresentação ao vivo: mesma formação desde 2001.

De Godzilla a Gojira

A história começa em Ondres, pequena cidade no sudoeste da França, em 1996. Os irmãos Joe Duplantier (vocal e guitarra) e Mario Duplantier (bateria) tinham 19 e 14 anos quando decidiram montar uma banda de death metal técnico com ênfase em melodia — uma combinação que, na época, quase ninguém fazia dentro do gênero. Chamaram o guitarrista Christian Andreu, também com 19 anos, e completaram a formação com o baixista Jean-Michel Labadie.

A banda se chamava Godzilla até 2001, quando um processo pela marca registrada do monstro japonês forçou a troca de nome. Gojira — o nome original de Godzilla em japonês — ficou, e a formação não mudou uma peça desde então, o que é raro num gênero conhecido por trocas frequentes de integrante e brigas internas.

Um som que não cabia em nenhuma gaveta

Discos como From Mars to Sirius (2005) e The Way of All Flesh (2008) colocaram o Gojira no radar do metal extremo por um motivo bem específico: riffs politécnicos e vocais guturais pesados, mas construídos em torno de melodia, não só de velocidade bruta. A crítica especializada passou a tratar a banda como referência de death metal progressivo — um território até então dominado quase que exclusivamente por bandas americanas e suecas.

As letras também fugiam do padrão do gênero: em vez de horror e violência, o Gojira cantava sobre destruição ambiental, oceanos e a relação do ser humano com a natureza — um tema que virou marca registrada da banda e aparece, de um jeito ou de outro, em praticamente todos os discos.

Magma: o disco que nasceu do luto

Em 2016 veio a virada mais pessoal da carreira. Durante a gravação de Magma, a mãe dos irmãos Duplantier, Patricia, morreu. O álbum — dedicado a ela — trocou parte da agressividade técnica dos discos anteriores por um som mais melódico e introspectivo, sem abandonar o peso.

Foi o disco que abriu a banda para um público que nunca tinha ouvido um riff de death metal na vida.

Magma rendeu ao Gojira duas indicações no Grammy de 2017: Best Rock Album pelo disco inteiro e Best Metal Performance pela faixa "Silvera". A banda não levou nenhuma das duas, mas as indicações marcaram a primeira vez que o Gojira apareceu na premiação mais importante da indústria musical americana.

O momento que ninguém esperava: Paris 2024

Em 26 de julho de 2024, o Gojira tocou ao vivo durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris — a primeira banda de metal da história a se apresentar numa abertura olímpica. A cena, montada na Conciergerie, às margens do rio Sena, mostrou uma Maria Antonieta decapitada cantando "Ah! Ça Ira", hino popularizado durante a Revolução Francesa, enquanto a banda tocava logo abaixo dela, em meio à chuva que caiu naquela noite.

A imagem gerou debate nas redes — alguns espectadores a leram como ritual satânico, leitura que a banda negou publicamente em entrevista —, mas o fato histórico ficou registrado: dentro de um evento assistido por bilhões de pessoas ao redor do mundo, o som que tocou foi death metal técnico de uma banda francesa que passou a carreira inteira fora do mainstream.

Cerimônia de abertura das Olimpíadas de Paris 2024
Gojira tocou na cerimônia de abertura dos Jogos de Paris, em julho de 2024.

Por que essa combinação funcionou

  • Identidade visual forte: capas e cenografia sempre ligadas a temas ambientais e mitológicos, nunca genéricas
  • Consistência de formação: mesma escalação desde 2001, o que deu à banda um som reconhecível de disco em disco, sem as quebras bruscas comuns no gênero
  • Discurso ambiental: letras recorrentes sobre destruição da natureza, tema que a banda carrega desde os primeiros álbuns e que ajudou a diferenciá-la de outras bandas de metal extremo
  • Técnica sem perder a melodia: a marca registrada que atraiu tanto o público de metal extremo quanto ouvintes que normalmente nunca chegariam perto do gênero

Três décadas depois de montar uma banda de garagem numa cidade pequena da França, o Gojira provou que dava para chegar ao palco mais visto do planeta sem trocar uma nota do que fez a banda existir.

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