Devil May Cry: como Dante virou o rosto do estilo frenético dos games de ação
Dante não corre de monstro. Ele conta piada, recarrega a escopeta e salta de guarda-chuva aberto em cima do inimigo seguinte. Essa postura — metade exterminador, metade stand-up — nasceu em 2001 dentro da Capcom e, mais de duas décadas depois, ainda define o que o público espera de um jogo de ação estiloso.
Um Resident Evil que a Capcom não quis
Hideki Kamiya estava tentando fazer Resident Evil 4. Ele queria um jogo mais ágil, com combate mais livre, ainda dentro da série de survival horror da Capcom — só que a produtora achou que aquilo fugia demais da proposta da franquia. Em vez de forçar a ideia dentro do molde errado, Kamiya e a equipe apelidada "Little Devils" transformaram o projeto em outra coisa.
O resultado chegou ao PlayStation 2 em 23 de agosto de 2001 com o nome Devil May Cry — uma homenagem ao apelido da própria equipe dentro da Capcom.
Dante chegou pronto: casaco vermelho, cabelo branco, espada Rebellion e duas pistolas batizadas Ebony & Ivory. O design deixava claro que ali não era mais sobre sobreviver a um surto zumbi — era sobre entrar numa sala cheia de demônios e sair de lá se divertindo.
De onde veio aquele combate no ar?
A assinatura visual da série — manter o inimigo flutuando no ar enquanto o combo continua — não foi planejada. Kamiya encontrou o truque por acidente enquanto testava Onimusha: Warlords, outro jogo da Capcom: golpes repetidos travavam o inimigo numa sequência aérea que parecia boa demais para descartar.
Esse acidente virou regra de design. Devil May Cry trocou o terror claustrofóbico de Resident Evil por combate vertical e estiloso, pontuado por uma nota que avalia a performance do jogador a cada combate — de D a SSS.
Cinco jogos numerados, quase sempre o mesmo diretor
A franquia manteve o mesmo núcleo por cinco jogos principais, trocando de diretor só uma vez:
| Jogo | Ano | Direção |
|---|---|---|
| Devil May Cry | 2001 | Hideki Kamiya |
| Devil May Cry 2 | 2003 | Hideaki Itsuno |
| Devil May Cry 3: Dante's Awakening | 2005 | Hideaki Itsuno |
| Devil May Cry 4 | 2008 | Hideaki Itsuno |
| Devil May Cry 5 | 2019 | Hideaki Itsuno |
Kamiya não voltou a dirigir a série depois do primeiro jogo — seguiu para criar Bayonetta, na Platinum Games, um projeto que boa parte da crítica trata como sucessor espiritual direto de Devil May Cry.
Somadas, as cinco entradas numeradas já passaram de 38 milhões de cópias vendidas em todo o mundo até o fim de 2025, segundo o histórico oficial da franquia — e Devil May Cry 5 sozinho responde por cerca de um quarto desse total, puxado também pela popularidade renovada depois da chegada da série ao catálogo da Netflix.
Vergil, o espelho que Dante não escolheu
Nenhum vilão da franquia pesa tanto quanto Vergil, irmão gêmeo de Dante e herdeiro, como ele, do demônio Sparda. Onde Dante trata a caça a demônios como piada, Vergil trata como destino: quer o poder do pai só para si e enxerga a humanidade do irmão como fraqueza.
Essa rivalidade entre gêmeos atravessa a franquia inteira e sustenta boa parte do enredo de Devil May Cry 3, considerado por fãs e crítica o ponto em que a série encontrou seu tom definitivo.
O sangue de Sparda não parou nos dois irmãos. Devil May Cry 4 apresentou Nero, jovem caçador de demônios que carrega um braço demoníaco chamado Devil Bringer — e que a série revelaria mais tarde ser filho de Vergil. Já Devil May Cry 5 foi além e trouxe V, personagem enigmático que caminha com três familiares e que termina o jogo revelado como a própria metade humana de Vergil, separada dele havia anos.
O reboot que a base de fãs levou anos para perdoar
Em 2013, a britânica Ninja Theory assumiu a série com DmC: Devil May Cry, um reboot com um Dante mais jovem, cabelo escuro e visual bem mais sóbrio que o original. A reação imediata foi dura: parte dos fãs rejeitou o redesign antes mesmo de jogar.
Anos depois, a própria Capcom resolveu o impasse sem apagar nenhum dos dois lados: tratou o reboot como uma linha do tempo alternativa, preservando a continuidade clássica para a sequência que viria com Devil May Cry 5, lançado em 2019 e hoje o título mais vendido da franquia.
Dante também ganhou desenho
Em abril de 2025, a Netflix estreou uma série de anime baseada em Devil May Cry, produzida por Adi Shankar — o mesmo nome por trás de Castlevania — e animada pelo estúdio Mir. A adaptação se apresenta como uma reimaginação não canônica dos jogos, livre para reinventar personagens e cronologia.
A primeira temporada rendeu renovação quase imediata, e uma segunda leva de episódios chegou em maio de 2026. Duas décadas depois do lançamento original, Dante segue encontrando público novo — só que, agora, sem precisar de controle nas mãos.
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