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Rock

Mötley Crüe: a banda que sobreviveu a si mesma antes de virar lenda

Poucas bandas transformaram excesso em discografia do jeito que o Mötley Crüe transformou. Entre overdose, prisão e um livro de memórias famoso demais para ser confortável, o quarteto de Los Angeles construiu uma carreira onde a tragédia e o hit de rádio andaram sempre juntos.

Banda Mötley Crüe se apresentando ao vivo no Sweden Rock Festival
Mötley Crüe em apresentação ao vivo no Sweden Rock Festival, 2012

Hollywood, 1981

O baixista Nikki Sixx e o baterista Tommy Lee formaram o Mötley Crüe em Los Angeles em 1981, logo depois que Sixx ficou sem banda com o fim do grupo London. Mick Mars entrou pelo caminho mais direto possível: respondeu a um anúncio de jornal. Foi ele quem sugeriu o último nome da formação, Vince Neil, depois de vê-lo cantar com a banda Rock Candy no Starwood, em Hollywood.

O visual pesado de maquiagem, botas e cabelo armado logo virou marca registrada — e os discos Too Fast for Love (1981) e Shout at the Devil (1983) colocaram a banda no mapa do glam metal que dominaria a década seguinte.

A cena de Los Angeles do início dos anos 80 estava cheia de bandas parecidas, cada uma tentando ser mais chamativa que a outra no Sunset Strip. O Mötley Crüe se destacou não só pelo som, mas pela disposição de ir além em tudo — no figurino, nas festas e, cedo demais, nas consequências disso.

8 de dezembro de 1984

Vince Neil dirigia bêbado um De Tomaso Pantera laranja, com o baterista da banda finlandesa Hanoi Rocks, Nicholas "Razzle" Dingley, no banco do passageiro, quando perdeu o controle do carro em Redondo Beach e bateu de frente com outro veículo. Razzle morreu na hora. Os dois ocupantes do outro carro ficaram com sequelas permanentes.

Neil foi condenado por homicídio culposo e dirigir embriagado: 30 dias de prisão (cumpriu 15, por bom comportamento), cinco anos de condicional e mais de 2,6 milhões de dólares em indenização.

O disco seguinte, Theatre of Pain, saiu dedicado à memória de Razzle — um lembrete pesado de que a banda cantava sobre excesso sem precisar inventar nada.

Como um disco nasce de uma overdose?

Em dezembro de 1987, Nikki Sixx teve uma overdose de heroína num apartamento em Los Angeles e passou dois minutos clinicamente morto antes de um paramédico reanimá-lo com adrenalina direto no peito.

Sixx transformou a experiência em canção: "Kickstart My Heart", lançada dois anos depois no álbum Dr. Feelgood (1989) — o disco que levaria o Mötley Crüe ao topo da parada americana pela primeira e única vez.

O auge: Dr. Feelgood

Dr. Feelgood estreou em 1º lugar na Billboard 200 e manteve a banda nas rádios por mais de um ano com uma sequência de singles de sucesso:

  • "Dr. Feelgood"
  • "Kickstart My Heart"
  • "Without You"
  • "Same Ol' Situation (S.O.S.)"
  • "Don't Go Away Mad (Just Go Away)"

Foi o pico comercial de uma banda que, até ali, era mais conhecida pelos tablóides do que pelas paradas.

Nikki Sixx tocando baixo em show do Mötley Crüe
Nikki Sixx, baixista e principal compositor do Mötley Crüe

The Dirt: dos excessos ao livro, do livro ao filme

Em 2001, os quatro integrantes se sentaram com o jornalista Neil Strauss e contaram tudo — overdoses, brigas, prisões, mortes — no livro de memórias The Dirt: Confessions of the World's Most Notorious Rock Band. Virou leitura obrigatória para qualquer fã de rock dos anos 80, sobretudo pela disposição da banda de não poupar os próprios erros no relato.

Dezoito anos depois, a Netflix adaptou o livro num longa-metragem de mesmo nome, reapresentando a história da banda para uma geração que nunca tinha ouvido falar nela — e reacendendo o interesse pelo catálogo antigo nas plataformas de streaming.

Mick Mars sai, a guerra começa

Em outubro de 2022, Mick Mars anunciou que pararia de excursionar por causa de uma espondilite anquilosante — uma doença degenerativa que já o afetava havia décadas. O guitarrista John 5 assumiu o posto nos palcos.

Mars processou os ex-colegas em 2023, alegando ter sido afastado de forma arquitetada e cobrando uma fatia maior da banda. A disputa se arrastou até janeiro de 2026, quando um árbitro decidiu a favor do Mötley Crüe em toda a linha: Mars foi condenado a devolver US$ 750 mil de um adiantamento e a vender sua participação na marca por cerca de US$ 505 mil.

Mesmo com a saída do último fundador original ainda na ativa além de Sixx, Lee e Neil, a banda segue vendendo — mais de 100 milhões de discos ao longo de quatro décadas de carreira.

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