Black Sabbath: o dia em que o rock ficou pesado de propósito
Antes de existir a palavra "metal" como gênero, existiu um som. Pesado, lento, sombrio, vindo de uma cidade industrial cinzenta no centro da Inglaterra. O Black Sabbath não planejou criar uma religião barulhenta — só transformou a própria realidade operária em música. E mudou tudo.
Birmingham, fim dos anos 1960
Birmingham era fumaça, aço e turnos de fábrica. Foi ali que Tony Iommi, Ozzy Osbourne, Geezer Butler e Bill Ward se juntaram, primeiro sob o nome Earth, tocando um blues rock como tantos outros.
A virada veio quando perceberam que havia uma fila de cinema sempre cheia para filmes de terror. A pergunta foi simples e genial: se as pessoas pagam para sentir medo, por que não fazer música que provoque a mesma coisa?
Mudaram o nome para Black Sabbath, título de um filme de horror, e apontaram o som para o lado escuro.
O acidente que afinou o metal
Aqui está o detalhe que parece lenda, mas é real.
Tony Iommi trabalhava numa fábrica de chapas de metal e, no último dia antes de virar músico profissional, perdeu as pontas de dois dedos da mão direita numa prensa.
Para um guitarrista canhoto, foi quase o fim.
Em vez de desistir, Iommi fez próteses caseiras com pontas de garrafa plástica derretida e couro. Para conseguir pressionar as cordas com os dedos mutilados, afinou a guitarra para baixo e passou a usar cordas mais leves. O resultado foi um som mais grave, mais carnudo, mais ameaçador — a base sonora de todo o heavy metal que viria depois.
Dois discos, um gênero inteiro
Em 1970, a banda lançou dois álbuns. Em um único ano.
O primeiro, Black Sabbath, abre com sino de igreja, chuva e um trovão antes do riff de tritono — o intervalo que a Igreja medieval apelidou de "o diabo na música". O segundo, Paranoid, trouxe as faixas que definiriam a carreira.
Se você quer entender o DNA do metal em três músicas, comece por aqui:
- "Paranoid", escrita em minutos como faixa de preenchimento e virada hino;
- "Iron Man", com um dos riffs mais reconhecíveis da história;
- "War Pigs", um ataque pesado e direto contra a guerra do Vietnã.
Mais do que volume
É fácil reduzir o Sabbath a barulho, mas a banda tinha peso de conteúdo também. Geezer Butler escrevia letras sobre guerra, paranoia, vício e medo do futuro num momento em que o rock ainda flertava com flores e amor livre.
O contraste era proposital. Enquanto metade do mundo cantava paz, o Sabbath descrevia a ressaca da realidade. Essa honestidade sombria é parte da razão pela qual a banda envelheceu tão bem.
A voz e o personagem
Ozzy Osbourne nunca foi o vocalista mais técnico do mundo, e tudo bem. A voz dele, fina e nasalada, funcionava como uma sirene em cima daquele peso todo — um aviso humano dentro da muralha de guitarras.
Mais tarde, Ozzy viraria personagem de cultura pop por conta própria, do morcego à TV. Mas a fundação de tudo está nesses primeiros discos, quando ele era apenas o garoto de Birmingham que dava rosto ao monstro que a banda tinha criado.
O eco que não para
Metallica, Slayer, Pantera, Soundgarden, Slipknot, Ghost. Pegue qualquer banda pesada das últimas cinco décadas e puxe o fio para trás: ele termina em Birmingham, numa prensa de fábrica e num riff em tritono.
O Black Sabbath não só tocou heavy metal. Eles desenharam o molde, definiram a estética e provaram que escuridão também podia ser catártica. Tudo o que veio depois é variação de um tema que esses quatro inventaram quase por acidente.
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