Vagabond: o mangá aclamado de Takehiko Inoue que está parado há mais de uma década
Tem mangá que demora para voltar do hiato. E tem Vagabond, que simplesmente parou. A obra de Takehiko Inoue sobre o espadachim Miyamoto Musashi é tratada por crítica e fãs como um dos maiores quadrinhos japoneses já feitos — e, ainda assim, não ganha um capítulo novo desde 2015.
Quem foi Miyamoto Musashi, de verdade?
Antes de ser personagem, Musashi foi gente. Espadachim e estrategista do Japão entre o fim do século 16 e o início do 17, ele é lembrado por nunca ter perdido um duelo, por lutar com duas espadas ao mesmo tempo — o estilo niten ichi, que leva seu nome até hoje — e por escrever, já no fim da vida, o tratado O Livro dos Cinco Anéis, ainda hoje citado fora do Japão em livros sobre estratégia e negócios. Nos últimos anos de vida, largou a espada e virou pintor e escultor, deixando obras de tinta sumiê que sobrevivem em museus japoneses até hoje.
Em 1935, o escritor Eiji Yoshikawa transformou essa biografia semi-lendária no romance Musashi, um sucesso popular no Japão que já virou filme várias vezes, inclusive numa trilogia estrelada por Toshiro Mifune nos anos 50. Foi esse livro — não a história real pura — que Takehiko Inoue decidiu adaptar em quadrinhos.
Do basquete para a espada
Inoue já era um dos nomes mais vendidos do Japão graças a Slam Dunk, mangá de basquete que definiu o gênero esportivo nos anos 90 e inspirou gerações de jogadores reais a entrar em quadra. Vagabond, lançado na revista Morning em 3 de setembro de 1998, foi o oposto disso: nada de quadra, nada de time, nada de torneio.
O traço virou outra coisa. Para desenhar a violência seca dos duelos, Inoue passou a estudar pintura sumiê, a técnica japonesa de tinta e pincel, e isso aparece em página após página: fundos que parecem aquarela, golpes de espada desenhados como pinceladas únicas, silêncio onde a maioria dos mangás colocaria onomatopeia.
Os duelos que todo leitor lembra
Boa parte da fama de Vagabond vem de como ele estica o tempo. Dois confrontos concentram essa fama:
- A sequência contra a Escola Yoshioka, em Kyoto, onde Musashi enfrenta um dojo inteiro sozinho, numa das passagens mais longas e mais citadas do mangá.
- O duelo final contra o rival Sasaki Kojirō, na ilha que passou a se chamar Ganryū-jima em homenagem a ele. Kojirō era famoso por lutar com uma espada longa incomum, apelidada de Monohoshizao ("vara de secar roupa"), e Musashi teria vencido o duelo com um remo de madeira esculpido às pressas.
Inoue dedica dezenas de páginas só à aproximação desses duelos, decompondo cada passo e cada respiração antes do primeiro golpe. É um ritmo que nenhum outro mangá de ação tenta copiar: quanto mais perto da luta, mais devagar a história anda.
Os números por trás da fama
| Dado | Número |
|---|---|
| Início da serialização | 3 de setembro de 1998 |
| Revista | Morning (Kodansha) |
| Volumes publicados | 37 |
| Capítulos publicados | 327 |
| Exemplares em circulação | mais de 82 milhões |
São números de best-seller mundial para uma história que, tecnicamente, nunca chegou ao fim.
O hiato que começou em silêncio
Vagabond já tinha parado outras vezes antes, geralmente por causa da saúde de Inoue. Em dezembro de 2010, o próprio autor avisou que a série ficaria pausada até ele recuperar o entusiasmo necessário para desenhá-la.
O capítulo 327, "The Man Named Tadaoki", saiu em 21 de maio de 2015. Onze anos depois, o capítulo 328 nunca chegou.
Um currículo de prêmios para uma obra incompleta
A falta de final não impediu Vagabond de colecionar reconhecimento:
- Prêmio Kodansha de Mangá, categoria geral (2000)
- Grande Prêmio do Japan Media Arts Festival (2000)
- Grande Prêmio Tezuka Osamu de Cultura (2002)
- Indicação ao Eisner Award de Melhor Roteirista/Desenhista (2003)
Vai voltar um dia?
Não há nenhuma data anunciada. Inoue segue ativo — publicou capítulos de Real, seu outro mangá, sobre basquete em cadeira de rodas, e segue dando entrevistas sobre o próprio processo criativo — mas Vagabond não entra na conversa há anos.
Comparar com outras esperas famosas do mangá, como os hiatos de Hunter x Hunter, só ajuda até certo ponto: aqueles sempre voltaram, ainda que depois de pausas longas. Vagabond, por ora, segue sem essa garantia — é só uma obra-prima que parou no meio da frase, com o leitor sem saber se um dia vai ouvir o resto.
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