Nine Inch Nails: como um cara sozinho num estúdio de Cleveland virou o rosto do rock industrial
Poucas bandas de rock carregam o nome de uma pessoa só do jeito que Nine Inch Nails carrega o nome de Trent Reznor. Ele escreveu, tocou e produziu quase tudo nos primeiros discos; o resto da banda sempre existiu para levar aquilo ao palco. É uma trajetória com guerra de gravadora, uma casa com um passado sinistro e, décadas depois, dois Oscars — de uma carreira que começou escondida, fora do horário comercial de um estúdio.
De onde vem o nome Nine Inch Nails?
Reznor foi contratado como técnico no Right Track Studios, em Cleveland, no fim dos anos 1980. Era um emprego de bastidor — até ele perceber que podia usar o equipamento do estúdio fora do expediente para gravar as próprias músicas. Fez isso sozinho, tocando todos os instrumentos.
Para batizar o projeto, gerou uma lista de nomes possíveis e escolheu Nine Inch Nails porque, segundo ele mesmo contou depois, abreviava bem (NIN) e soava do jeito certo. Outro nome da mesma lista, Slick Idiot, acabou virando banda de verdade — uma formação alemã homônima que gravou covers de NIN nos anos 1990.
Um homem, um estúdio e uma guerra com a gravadora
O disco de estreia, Pretty Hate Machine (1989), saiu pela TVT Records e vendeu mais de três milhões de cópias nos Estados Unidos — uma seleção de música industrial batendo às portas do mainstream num momento em que o gênero vivia só no underground.
O sucesso virou problema. Reznor queria mais controle criativo do que a TVT estava disposta a dar, e os dois entraram numa briga contratual que travou por anos. A solução foi um acordo pouco comum: Reznor criou sua própria gravadora, a Nothing Records, distribuída pela Interscope — um jeito de manter as rédeas sem cortar os laços de distribuição.
A gravadora que também lançou Marilyn Manson
A Nothing Records não serviu só para Nine Inch Nails. Foi o próprio Reznor quem descobriu e assinou Marilyn Manson, ainda desconhecido, e produziu o disco de estreia da banda, Portrait of an American Family (1994). Manson abriu shows de Nine Inch Nails logo no começo da carreira — uma dupla que, nos anos seguintes, viraria sinônimo do lado mais sombrio e teatral do rock dos anos 1990.
A casa onde Satanás morou
Em 1993, Reznor montou um estúdio dentro de uma casa alugada no Benedict Canyon, em Los Angeles: o endereço era 10050 Cielo Drive, onde a família de Charles Manson matou Sharon Tate e outras quatro pessoas em 1969. Reznor batizou o estúdio de "Le Pig", em referência à palavra escrita com sangue na porta da frente da casa pelos assassinos.
Foi lá, com o produtor Flood, que ele gravou The Downward Spiral (1994) — o disco que projetou Nine Inch Nails para o mainstream, com faixas como "Closer" e "March of the Pigs".
Reznor saiu da casa no fim de 1993, pouco antes de ela ser demolida. Levou uma coisa só: a porta da frente.
Lama em Woodstock e um Grammy inesperado
A apresentação de Nine Inch Nails no Woodstock de 1994 ficou famosa por um motivo simples: chovia, o chão virou lama, e a banda subiu ao palco cobrindo-se (e ao público) de barro — uma das imagens mais lembradas do festival.
Um ano antes, a faixa "Wish", do EP Broken (1992), tinha dado a Reznor seu primeiro Grammy, na categoria Best Metal Performance. Ele comentou décadas depois, em tom de piada, que seu epitáfio poderia resumir a ironia de ganhar um prêmio da Academia com uma letra tão agressiva.
Do rock industrial para Hollywood
A carreira de Reznor se abriu para o cinema a partir dos anos 2010, em parceria com o produtor Atticus Ross. Juntos, os dois:
- Venceram o Oscar de melhor trilha sonora original por A Rede Social (2010), de David Fincher, na cerimônia de 2011;
- Venceram o Oscar novamente por Soul (2020), da Pixar, ao lado do músico Jon Batiste, na cerimônia de 2021;
- Assinaram as trilhas de outros filmes de Fincher, como Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres e Mank.
Poucos nomes do rock pesado têm dois Oscars de trilha sonora na estante.
O legado
Nine Inch Nails também foi pioneira em distribuição: Ghosts I–IV (2008), um álbum instrumental, saiu sob licença Creative Commons, liberando parte do material para remix — um modelo raro para uma banda do tamanho de NIN na época, numa indústria que ainda tratava a internet como ameaça e não como ferramenta.
A banda seguiu lançando discos regularmente nos anos seguintes — Hesitation Marks (2013), a trilogia Not the Actual Events, Add Violence e Bad Witch (2016–2018) — sem nunca abandonar o formato que a definiu: Reznor no centro, colaboradores entrando e saindo, e o som mudando de forma a cada álbum sem deixar de soar como Nine Inch Nails.
Head like a hole, black as your soul
O verso de abertura de "Head Like a Hole", do primeiro disco, resume o que a banda entregou por mais de três décadas: som pesado, letra direta, e um homem que preferiu construir sozinho o próprio estúdio do que esperar permissão de ninguém.
Leia também

Nickelback confirma Everything Under the Sun World Tour para 2027, com Don Broco na abertura
Nickelback confirma a Everything Under the Sun World Tour para 2027, com Don Broco de abertura, enquanto o novo álbum chega às plataformas em 30 de outubro.

Ghost: a banda que troca de Papa a cada álbum e ainda assim chegou ao topo da Billboard
Criada por Tobias Forge, a banda sueca Ghost transformou anonimato e encenação papal distorcida numa carreira que já rendeu Grammy e Nº 1 na Billboard.

Megadeth: a banda que nasceu de uma demissão e virou lenda do thrash metal
Expulso do Metallica dias antes de gravar o primeiro disco, Dave Mustaine formou o Megadeth para provar que errar com ele era um erro.
