Megadeth: a banda que nasceu de uma demissão e virou lenda do thrash metal
Abril de 1983, em Nova York. O Metallica está prestes a entrar em estúdio para gravar Kill 'Em All, seu disco de estreia, quando decide dispensar o guitarrista Dave Mustaine. O motivo oficial: bebida demais, brigas demais, paciência de menos. A banda nem esperou ele acordar — deixou uma passagem de ônibus para Mustaine voltar para casa, na Califórnia.
Por que Dave Mustaine foi expulso do Metallica?
A versão contada pelos próprios envolvidos, ao longo de décadas de entrevistas, é consistente: Mustaine tinha um talento musical que ninguém discutia, mas também um temperamento que colidia direto com James Hetfield e Lars Ulrich. Discussões, excessos com álcool e um ou outro episódio de atrito dentro da banda esgotaram a paciência dos outros membros.
A demissão foi cirúrgica. Sem ensaio, sem conversa de despedida — só a passagem de ônibus em cima da cama, de manhã.
Dois dias depois, o posto de guitarrista já tinha dono: Kirk Hammett, até então na banda Exodus, foi chamado às pressas para o lugar e acabou sendo quem gravou os solos de Kill 'Em All. O Metallica não parou um único dia por causa da demissão — o que, para Mustaine, só piorou a sensação de ter sido descartado.
O nascimento do Megadeth
Mustaine não voltou para casa derrotado. Dias depois de ser expulso, já estava articulando uma banda nova com o baixista David Ellefson. O nome escolhido, Megadeth, veio de uma variação proposital da palavra "megadeath" — a contagem teórica de mortes causada por uma explosão nuclear de grande escala.
A mensagem era clara desde o nome: o Megadeth nasceu para ser mais técnico, mais agressivo e mais ambicioso do que a banda que o rejeitou. Mustaine tinha raiva para queimar e decidiu transformar isso em riff. O grupo assinou com a gravadora Combat Records e lançou seu primeiro disco, Killing Is My Business... and Business Is Good!, em 1985 — título que já era, em si, uma resposta direta a quem duvidava dele.
Os anos seguintes trouxeram trocas de formação constantes — Mustaine chegou a ser apelidado de "o chefe mais difícil do metal" pela imprensa especializada —, mas também uma sequência de discos cada vez mais ambiciosos, caso de Peace Sells... but Who's Buying? (1986), que colocou o Megadeth de vez ao lado das grandes bandas de thrash da época.
Rust in Peace: o disco que provou o ponto
Depois de alguns álbuns de peso nos anos 1980, o Megadeth encontrou sua formação definitiva — Mustaine, Ellefson, o guitarrista Marty Friedman e o baterista Nick Menza — para gravar Rust in Peace, em 1990. O disco é hoje considerado por crítica e fãs um dos melhores álbuns de thrash metal já feitos, com faixas como "Holy Wars... The Punishment Due" e "Hangar 18" combinando velocidade, mudanças de tempo complexas e solos de guitarra em camadas.
Se Kill 'Em All tinha sido a prova de que o Metallica não precisava de Mustaine, Rust in Peace foi a prova de que Mustaine também não precisava do Metallica. Décadas depois, o disco continua aparecendo em praticamente toda lista séria sobre os melhores álbuns de metal já gravados — prova de que a técnica refinada do Megadeth envelheceu bem.
Os Quatro Grandes do thrash
Megadeth, Metallica, Slayer e Anthrax formam o que a imprensa de rock batizou de "Big Four" do thrash metal — as quatro bandas que, nos anos 1980, definiram o gênero e levaram o metal extremo para estádios.
| Banda | Ano de formação | Disco mais citado |
|---|---|---|
| Metallica | 1981 | Master of Puppets |
| Megadeth | 1983 | Rust in Peace |
| Slayer | 1981 | Reign in Blood |
| Anthrax | 1981 | Among the Living |
As quatro bandas só subiram juntas ao mesmo palco décadas depois, encerrando de vez qualquer rixa que tivesse sobrado da saída de Mustaine. Em 2010, o Megadeth dividiu os Estados Unidos com o Slayer na turnê American Carnage, com Testament abrindo a primeira etapa e Anthrax entrando na segunda — outro sinal de que a concorrência dos anos 1980 tinha virado, com o tempo, respeito mútuo entre as bandas que criaram o gênero. Para uma geração de fãs, ver Megadeth e Metallica dividindo o mesmo line-up foi o fechamento simbólico de uma briga que começou com uma passagem de ônibus.
Megadeth ainda importa hoje?
Sim — e não só pela nostalgia. O Megadeth seguiu lançando discos e turnês ao longo dos anos 2000 e 2010, sobrevivendo a trocas de formação e a um momento particularmente duro: em 2019, Mustaine anunciou que estava com câncer na garganta.
O tratamento funcionou. Mustaine voltou aos palcos, retomou a turnê e manteve a banda ativa, carregando consigo a mesma determinação que o levou a formar o Megadeth quase quatro décadas antes. Mesmo com mais de 40 anos de carreira, o grupo segue sendo cotado para os line-ups dos maiores festivais de metal do planeta, ao lado de nomes que só existem, em parte, porque ele existiu primeiro.
A banda que nasceu de uma demissão nunca parou de provar que aquele ônibus de volta para casa foi, no fim, o pior erro de cálculo da história do metal.
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