Ian Hill anuncia retirada do Judas Priest após mais de 55 anos de banda
Toda banda de heavy metal com mais de cinco décadas de estrada carrega um tipo de desgaste que não aparece nas fotos de capa. No Judas Priest, esse desgaste tem nome: artrite. E depois de carregar o baixo no palco desde 1970, Ian Hill anunciou que chegou a hora de parar.
O aviso que veio de Bruxelas
O estopim foi físico, não emocional. Durante um show em Bruxelas, na mais recente etapa europeia da turnê do álbum Invincible Shield, Hill sentiu um tendão do ombro esquerdo se romper pouco antes dos bis. A dor foi imediata: ele não conseguia mais erguer o braço o suficiente para alcançar o braço do próprio baixo, muito menos sustentar o instrumento pelo tempo de um show inteiro. O músico precisou ficar de fora da apresentação seguinte, em Londres, no histórico Eventim Apollo — a primeira vez em décadas que um show do Judas Priest aconteceu sem ele no palco. Na hora, a banda atribuiu a ausência apenas a uma lesão no braço; o anúncio da retirada definitiva só veio semanas depois.
Por que agora, depois de tantos anos de estrada?
A resposta é cumulativa. Segundo o próprio Hill, a artrite avançou no ombro esquerdo, se instalou também no direito e afetou os dois joelhos, somando-se a uma série de lesões acumuladas em décadas de turnês carregando um instrumento pesado por horas. Aos 74 anos, ele reconhece que o corpo já não acompanha a exigência física do palco. "Quando me perguntavam até quando eu aguentaria, eu sempre respondia: até minhas apresentações começarem a sofrer", resumiu o baixista ao anunciar a decisão. Para ele, esse momento chegou — e, segundo relatos de quem acompanhou a turnê, a mudança já era perceptível nos últimos shows, com Hill se movimentando menos no palco.
Entrou em 1970 e nunca mais saiu
Ian Hill não estava na formação original do Judas Priest, montada em Birmingham em 1969. Ele chegou em 1970, levado para a banda ao lado do amigo e guitarrista K.K. Downing — os dois vinham de um grupo local chamado Freight. A entrada de Hill acabou tendo um efeito em cadeia: foi ele quem apresentou à banda o então namorado de sua irmã, um cantor chamado Rob Halford, que assumiu os vocais em 1973. Dali em diante, a lista de marcos é extensa:
- Tornou-se o membro mais antigo em atividade contínua do Judas Priest, à frente de qualquer outro integrante;
- Tocou em todos os discos de estúdio da banda desde sua entrada, de Rocka Rolla (1974) até o mais recente;
- Atravessou a explosão do heavy metal britânico nos anos 1980 sem nunca deixar a formação;
- Permaneceu no baixo mesmo durante o período em que Rob Halford deixou a banda, entre 1992 e 2003, quando Tim "Ripper" Owens assumiu os vocais.
Poucas bandas de metal conseguem dizer que mantiveram um músico por tanto tempo sem interrupção — mesmo que ele não estivesse lá desde o primeiro dia.
A despedida, nas palavras de Ian Hill
No comunicado em que anunciou a saída, Hill preferiu o tom de gratidão ao de lamento. Ele encerrou o texto assim:
"Não existe um único dia em que eu não agradeça pela jornada incrível que vivi, e só me resta dizer que amo todos vocês, e obrigado pela vida que me permitiram viver."
A frase circulou rápido entre fãs do metal justamente por resumir o oposto de uma saída amarga: um músico encerrando o próprio capítulo em paz com a decisão, sem ressentimento pela banda ou pela plateia que o acompanhou por tanto tempo.
Quem assume o baixo a partir de agora
O substituto já estava nos bastidores havia um tempo. Davey Rimmer, baixista do Uriah Heep desde 2017 — outra lenda do hard rock britânico, também formada no fim dos anos 1960 —, foi chamado pelo Judas Priest para aprender o repertório inteiro como plano de contingência durante a turnê europeia recente, precaução que se mostrou necessária antes mesmo do anúncio oficial da saída de Hill. Rimmer assume o posto em definitivo a partir de agora, numa transição que, pela proximidade das duas bandas no circuito de festivais de hard rock, já vinha sendo cogitada nos bastidores havia meses. Vale lembrar que Hill já havia gravado suas partes de baixo para o próximo álbum do Judas Priest antes de anunciar a retirada, então o trabalho de estúdio mais recente da banda ainda carrega a marca dele.
O que fica depois que o baixo é guardado
Judas Priest sem Ian Hill no palco é uma imagem nova para qualquer fã que acompanhou a banda nas últimas décadas. Mas o catálogo que ele ajudou a construir — de British Steel a Painkiller, passando por Screaming for Vengeance — não muda de lugar. A retirada marca o fim de uma era dentro da banda, não o fim da banda, que segue em atividade com Rob Halford ainda no comando dos vocais e já de olho no próximo disco de estúdio. Para o heavy metal britânico, é mais um símbolo de que a geração que inventou o gênero está, aos poucos, entregando o microfone — e o baixo — para quem vem depois.
Leia também

Iron Maiden confirma retorno aos EUA e Canadá em 2027 para encerrar a turnê de 50 anos
Banda britânica anuncia 16 shows pela América do Norte entre abril e maio de 2027, com Bullet For My Valentine na abertura, para fechar a turnê de 50 anos.

A Tempestade: a gravação do último disco da Legião Urbana e os dias finais de Renato Russo
De janeiro a junho de 1996, Renato Russo gravou A Tempestade já debilitado. O disco saiu em 20 de setembro; três semanas depois, ele morreu.

Rage Against the Machine: a banda que transformou protesto político em riff pesado
De Los Angeles ao Hall da Fama do Rock, o Rage Against the Machine fez de riff pesado e letra política a própria assinatura da banda.
