Final Fantasy VII: como um RPG de 1997 mudou os games para sempre
Em 1997, um RPG japonês com personagens de cabeça grande e cenários pré-renderizados fez algo que poucos jogos conseguiram antes ou depois: colocou o gênero no centro da conversa mundial. Final Fantasy VII não foi o primeiro RPG de sucesso, mas foi o que provou que histórias densas, com filosofia, trauma e ecologia embutidos num blockbuster de ação, cabiam perfeitamente dentro de um console.
Midgar, cidade movida a mako
A Square apostou tudo na mudança de plataforma: saiu do Super Nintendo, foi para o PlayStation e trocou os sprites por polígonos 3D sobre fundos pré-renderizados em altíssima resolução para a época.
O resultado foi Midgar — uma metrópole dividida em placas de metal suspensas sobre bairros pobres, sustentada por reatores que sugam a energia vital do planeta (o mako). Cloud Strife, ex-soldado da Shinra virado mercenário, se junta ao grupo ecoterrorista Avalanche para explodir um desses reatores logo na abertura do jogo.
A premissa política — uma corporação drenando o planeta até a morte — não era comum em 1997. Final Fantasy VII vestia fantasia, mas falava de industrialização e colapso ambiental.
O que tornou o sistema tão viciante
Parte do fenômeno vem da jogabilidade, que empilhava ideias que hoje parecem óbvias mas eram novidade na época:
- Materia. Esferas equipáveis que davam magia, invocações e habilidades a qualquer personagem, permitindo montar times do zero.
- Sistema ATB (Active Time Battle). Batalhas por turno, mas com uma barra de tempo correndo — misturava estratégia com uma pitada de urgência.
- Invocações grandiosas. Bahamut, Knights of the Round e outras cutscenes que pareciam cinema.
- Minigames dentro do jogo. Do Chocobo Racing ao Snowboard, o mundo parava para brincar de outra coisa por um tempo.
A cena que ninguém esqueceu
Spoiler de quase 30 anos, mas ainda vale o aviso: no meio do jogo, Sephiroth mata Aerith Gainsborough de forma abrupta, sem cutscene prolongada, sem chance de reação do jogador.
Não existia botão de "desfazer". A perda era permanente, o personagem sumia do time para sempre e a trilha sonora — composta por Nobuo Uematsu — carregava o momento sem precisar de uma linha de diálogo a mais.
Uma geração inteira de jogadores guarda essa cena como o primeiro momento em que um jogo os fez sentir luto de verdade.
Por que a morte dela ainda dói tanto?
Porque Aerith não era um NPC descartável. Ela era a vendedora de flores das ruínas de uma igreja em Midgar, a última das Cetras, e tinha arco próprio, humor próprio e uma relação ambígua com Cloud que o jogo nunca resolveu de forma fácil.
A Square teve a chance de trazê-la de volta em remakes posteriores e, até agora, resistiu. Isso sozinho virou parte da lenda do jogo.
De 15 milhões de cópias a uma trilogia inteira
O jogo original vendeu mais de 15 milhões de cópias no mundo todo, número enorme para um RPG do fim dos anos 1990. Décadas depois, a Square Enix decidiu que a história merecia ser recontada do zero, em três partes:
- Final Fantasy VII Remake (2020) — cobre só o trecho inicial em Midgar, expandido para um jogo inteiro.
- Final Fantasy VII Rebirth (2024) — segue a jornada pelo mundo aberto, incluindo a morte de Aerith.
- Final Fantasy VII Revelation — capítulo final da trilogia, com lançamento previsto para 2027.
Original x Remake, lado a lado
| Original (1997) | Remake (2020) | |
|---|---|---|
| Plataforma | PlayStation | PlayStation 4/5 |
| Combate | Turnos com barra ATB | Ação em tempo real com pausa tática |
| Escopo de Midgar | Poucas horas de jogo | Jogo completo inteiro |
| Cópias vendidas | 15+ milhões | 8,7+ milhões (só o Remake) |
Um jogo que ainda está sendo terminado
É raro um game de 1997 seguir gerando manchete quase 30 anos depois, mas é exatamente o caso: a trilogia de remake só fecha o círculo em 2027, quando teoricamente teremos, enfim, uma resposta definitiva sobre o destino de Aerith e sobre o verdadeiro plano de Sephiroth.
Até lá, o original continua disponível, rodando em praticamente qualquer aparelho moderno — prova de que a história de Cloud, Tifa, Barret e companhia envelheceu muito melhor do que os polígonos que a contam.
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