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Games

Death Stranding: o jogo que ninguém sabia explicar e virou um gênero sozinho

Em 2019, pedir para alguém explicar o que era Death Stranding em uma frase virava um pequeno teste de paciência. "É um jogo de entregas" não parecia fazer justiça a um game com Mads Mikkelsen, cordas umbilicais, bebês em tanques e Norman Reedus carregando caixas por paisagens vazias. Sete anos depois do anúncio, o jogo ainda é citado como o exemplo máximo de como a indústria consegue — às vezes — abrir espaço para algo que não se parece com nada que veio antes.

Cena de jogabilidade de Death Stranding
Death Stranding: carregar cargas por paisagens desoladas é o centro da jogabilidade.

O primeiro passo de Kojima fora da Konami

Death Stranding nasceu de uma ruptura. Depois de deixar a Konami em 2015, em meio a um desentendimento público e midiatizado logo após o lançamento de Metal Gear Solid V, Hideo Kojima fundou a Kojima Productions com apoio direto da Sony e precisava provar que conseguia criar algo grande sem o estúdio que o formou desde os tempos de Metal Gear. O resultado saiu para PlayStation 4 em novembro de 2019, com versão para PC chegando em julho de 2020. Era, ao mesmo tempo, um recomeço de carreira e uma aposta de altíssimo risco: nenhum publisher grande banca um jogo tão estranho sem um motivo forte para confiar no nome por trás dele.

Paisagem de Death Stranding
O mundo pós-apocalíptico de Death Stranding, construído pela Kojima Productions após a saída da Konami em 2015.

Um elenco de cinema dentro de um controle de videogame

Kojima é conhecido por tratar seus jogos como produções de cinema, e em Death Stranding isso ficou ainda mais evidente. Norman Reedus (de The Walking Dead) interpreta o protagonista Sam Porter Bridges; Mads Mikkelsen vive o misterioso Cliff; Léa Seydoux dá vida a Fragile. O diretor de cinema Guillermo del Toro emprestou o rosto para o personagem Deadman, e o cineasta Nicolas Winding Refn também aparece digitalizado no jogo. Não é só decoração: os atores participaram de captura de performance completa, com atuação, voz e expressões faciais gravadas cena a cena, como num set de filmagem real.

O que, afinal, significa "strand"?

A palavra do título não é decoração. "Strand" remete a fios, cordas, conexões — e é exatamente o que o jogo coloca no centro da experiência. O chamado Social Strand System permite que jogadores interajam de forma indireta: pontes, escadas e abrigos construídos por uma pessoa aparecem no mundo de outras, criando uma rede de ajuda silenciosa entre estranhos que nunca se encontram diretamente. Essa estrutura de cooperação indireta roda sobre a chamada "chiral network", a internet fictícia que o personagem principal precisa reconectar ao longo da campanha — e que só existe graças ao esforço coletivo de quem joga.

Por que tanta gente travou nas primeiras horas?

A fama de "simulador de caminhada" não surgiu do nada. As primeiras horas de Death Stranding pedem paciência: carregar carga, calcular o peso no corpo do personagem, atravessar terrenos irregulares sem combate algum no horizonte, sempre sob o risco da "timefall", uma chuva que envelhece tudo o que toca e atrai criaturas invisíveis chamadas BTs. Para quem esperava um jogo de ação tradicional, o choque foi real — e gerou tanto abandono prematuro quanto, com o tempo, uma legião de jogadores que passou a defender o ritmo lento como o verdadeiro ponto forte do game.

Ação tradicional x proposta de Death Stranding

Jogo de ação comum Death Stranding
Foco em combate direto Foco em logística e travessia
Jogadores competem ou se ignoram Jogadores cooperam sem se ver
Progresso por força do personagem Progresso por planejamento de carga
Mundo fixo entre partidas Mundo moldado pela construção de outros

Referências escondidas em cada esquina do mapa

Quem joga com atenção percebe que Death Stranding funciona como uma carta de amor disfarçada à própria história dos games. Alguns exemplos:

  • As seções de direção, com veículos cruzando terrenos abertos, remetem a jogos de corrida clássicos;
  • Os trechos furtivos contra os MULEs, grupos armados que roubam carga, reaproveitam mecânicas direto de Metal Gear Solid, série que definiu a carreira de Kojima;
  • O confronto contra o vilão Higgs se estrutura como uma luta de jogo de briga em 2D, com fases e padrões de ataque claros.

Nenhuma dessas referências é citada em texto dentro do jogo — elas só aparecem para quem já tem a bagagem de décadas jogando outros gêneros.

De piada de memes a franquia reconhecida

Death Stranding levou um tempo para ser levado a sério. Nos primeiros meses, virou motivo de memes sobre "jogo de entregador" e teve recepção dividida entre crítica e público. Mas o jogo envelheceu bem: ganhou base de fãs fiel, foi reavaliado por quem voltou a ele depois do lançamento e, em junho de 2025, recebeu sequência direta, Death Stranding 2: On the Beach, com elenco ampliado e repercussão bem mais positiva de saída. É prova de que a Kojima Productions encontrou um território sólido o bastante para construir uma franquia nova a partir de uma ideia que, seis anos antes, parecia boa demais para dar certo — ou estranha demais para funcionar.

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