Brasil x Japão na Copa: o jogo que Capitão Tsubasa já tinha roteirizado
Nesta segunda-feira, 29 de junho, o Brasil encara o Japão pelos 16 avos de final da Copa do Mundo de 2026, em Houston. No campo, parece um duelo desigual. Fora dele, há uma ironia deliciosa: boa parte da paixão do Japão pelo futebol nasceu de um anime cujo herói tem um mentor brasileiro e sonha em jogar no Brasil. O nome dele é Capitão Tsubasa — no Brasil, Super Campeões.
O confronto de segunda-feira
A seleção de Carlo Ancelotti terminou a primeira fase na liderança do Grupo C, com duas vitórias e um empate. O Japão avançou em segundo no Grupo F, depois de empatar com a Holanda, golear a Turquia e segurar a Suécia.
Os dois se cruzam agora no mata-mata, no NRG Stadium, em Houston, às 14h de Brasília. É um reencontro velho conhecido das Copas — e cada um tem suas histórias do outro.
O anime que ensinou o Japão a amar a bola
Nos anos 1980, o esporte número um do Japão era o beisebol. O futebol vinha bem atrás.
Então chegou Capitão Tsubasa.
Criado por Yōichi Takahashi em 1981 nas páginas da revista Shōnen Jump, o mangá conta a história de Tsubasa Ozora, um menino apaixonado por futebol cuja frase de efeito virou bordão: "a bola é minha amiga". A série explodiu e despertou em uma geração inteira de crianças japonesas o desejo de calçar chuteiras.
A conexão brasileira escondida na história
Aqui está o detalhe que poucos brasileiros conhecem.
O grande mentor de Tsubasa na história é Roberto Hongo, um ex-jogador brasileiro que enxerga no garoto um talento bruto e o lapida.
E não para por aí: ao longo da saga, o sonho de Tsubasa é justamente jogar no Brasil, e ele chega a defender o São Paulo antes de seguir carreira na Europa. Para o autor, o Brasil sempre foi o templo do futebol — e isso ficou impresso no DNA do anime que formou o torcedor japonês.
De desenho a seleção de verdade
O mais impressionante é o quanto isso saiu da ficção e foi parar em campo. Vários craques japoneses que brilharam na Europa apontam Capitão Tsubasa como a primeira faísca:
- Hidetoshi Nakata, que disse ter escolhido o futebol no lugar do beisebol por causa do mangá;
- Shinji Kagawa, ídolo que passou por Borussia Dortmund e Manchester United;
- Keisuke Honda, símbolo da seleção em várias Copas.
Não é exagero dizer que o Japão competitivo de hoje tem, na sua certidão de nascimento, as páginas de um mangá.
Uma febre que vazou para o mundo todo
A influência não ficou só no Japão. Do outro lado do mundo, estrelas confessam o mesmo encanto de infância.
Andrés Iniesta, campeão do mundo pela Espanha, contou que assistia ao desenho antes de ir para a escola. Fernando Torres, Alessandro Del Piero, Zinedine Zidane e até Lionel Messi já citaram a obra como parte da paixão pelo esporte.
Um detalhe curioso e real: como Tsubasa joga de meia-atacante criativo, o Japão virou um país obcecado por meio-campistas — e historicamente sofre para revelar zagueiros e centroavantes na mesma quantidade.
Arte imitando o jogo, jogo imitando a arte
Nesta segunda, quando os dois times entrarem em campo, vale lembrar dessa via de mão dupla. O Brasil foi a referência que um japonês desenhou como o paraíso do futebol. O Japão pegou esse sonho, transformou em política esportiva e chegou às Copas como adversário de respeito.
Dentro das quatro linhas, o favoritismo é verde-amarelo. Mas fora delas, o placar é mais bonito: o futebol exportou um sonho para o Japão, e o Japão devolveu uma seleção que ninguém subestima. Tudo começou com um menino, uma bola e a frase de que ela era sua melhor amiga.
Leia também

Fullmetal Alchemist: Brotherhood e a regra que define toda a história
Dois irmãos, um erro irreversível e uma lei que governa o mundo inteiro. Por que Fullmetal Alchemist: Brotherhood é citado como um dos melhores animes já feitos.

Cowboy Bebop: jazz, faroeste e a solidão de caçar recompensas no espaço
Vinte e seis episódios, uma trilha de jazz inesquecível e um grupo de caçadores quebrados. Por que Cowboy Bebop continua sendo a porta de entrada perfeita para o anime.

Jujutsu Kaisen: por que a maldição de Gege Akutami virou fenômeno
Um estudante engole o dedo de um demônio milenar e vira hospedeiro do Rei das Maldições. Como essa premissa simples virou um dos maiores animes da década.
