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Rock

Alice Cooper: como um filho de pastor virou o padrinho do shock rock

Vincent Damon Furnier nasceu em Detroit, em 1948, filho de um pastor evangélico. Ninguém olhando para aquela infância apostaria que o garoto se transformaria no artista responsável por colocar cobras, guilhotinas e execuções falsas no centro de um show de rock. Mas foi exatamente isso que ele fez — e o apelido artístico que escolheu, Alice Cooper, virou sinônimo de um gênero inteiro.

Alice Cooper se apresentando no palco com maquiagem característica
Alice Cooper no palco: maquiagem pesada e teatro de terror como marca registrada.

De Vincent Furnier a Alice Cooper

A banda começou nos corredores do colégio, no Arizona, como Earwigs e depois Spiders, antes da família de Furnier se mudar para a Califórnia. Em 1968, o grupo se renomeou Alice Cooper — não o nome de um integrante, mas da banda inteira.

A escolha era deliberada: um nome doce e feminino para contrastar com uma imagem de vilão, roupas pretas e maquiagem pesada. O choque entre nome e aparência era, em si, parte do espetáculo.

O frango que criou um gênero

Em 1969, num festival em Toronto, uma galinha foi jogada ao palco durante a apresentação da banda. Furnier, que nunca tinha vivido numa fazenda, imaginou (erroneamente) que o bicho soubesse voar e a devolveu ao público. A ave não voou.

A imprensa noticiou que ele tinha decapitado o animal com os dentes. Era mentira — mas a banda percebeu o potencial da história e passou a alimentar essa reputação de pavor deliberadamente. Daquele mal-entendido nasceu um rótulo que o jornalismo musical usaria para o gênero inteiro: shock rock.

Como era um show de Alice Cooper nos anos 1970?

A banda transformou o palco num teatro de terror, item por item:

  1. Uma jiboia viva, batizada Yvonne, enrolada no corpo do vocalista.
  2. Execuções simuladas em guilhotina, com cabeça postiça rolando aos pés do público.
  3. Cadeiras elétricas de mentira e bonecas desmembradas como cenário.
  4. Figurino com cartola, maquiagem borrada e meias-calças rasgadas — visual copiado por gerações de bandas depois dele.

Nenhum desses elementos era gratuito: cada show contava uma narrativa, quase sempre terminando com a morte (teatral) do próprio Alice Cooper no palco.

School's Out e o auge comercial

O single-título do álbum School's Out, de 1972, virou hino adolescente com uma linha que ainda é cantada décadas depois:

School's out for summer, school's out forever

No ano seguinte, Billion Dollar Babies (1973) levou a banda ao topo das paradas dos Estados Unidos e do Reino Unido, com três músicas entre as dez mais tocadas britânicas. Era o pico comercial do grupo — e também o início do fim daquela formação.

A carreira solo

Em 1975, Furnier manteve legalmente o nome Alice Cooper e seguiu como artista solo, lançando o álbum conceitual Welcome to My Nightmare — um show ainda mais teatral, com trilha sonora pensada como uma peça inteira, não apenas uma sequência de faixas.

A mudança não diminuiu a ambição cênica. Se antes era uma banda inteira construindo o personagem, agora era um artista sozinho carregando o peso do próprio mito.

O retorno por cima nos anos 1980

Depois de uma década de altos e baixos comerciais, Alice Cooper voltou ao topo das paradas em 1989 com Poison, faixa do álbum Trash. A música chegou ao Top 10 da Billboard Hot 100 — seu primeiro hit nesse patamar desde o início dos anos 1970 — puxada por um clipe gótico que virou presença constante na MTV.

O álbum Trash vendeu mais de 4,5 milhões de cópias e apresentou Alice Cooper a uma geração inteira de fãs do glam metal que não tinha visto o teatro de terror original dos anos 1970. Era a prova de que o homem que inventou o rock teatral ainda competia de igual para igual com artistas que, décadas depois, usavam o manual de regras que ele mesmo escreveu.

Sobriedade, fé e golfe

Os anos 1970 e 1980 cobraram seu preço: Alice Cooper enfrentou alcoolismo grave antes de ficar sóbrio, em 1983. Depois disso, o artista que inventou o terror no palco construiu uma vida pública quase oposta — cristão declarado, apresentador de um programa de rádio de rock clássico e jogador de golfe assíduo, hobby que ele mesmo descreve como o substituto que encontrou para o vício.

Ele também fundou o Solid Rock Teen Center, centro comunitário sem fins lucrativos para adolescentes em Phoenix, e continua em turnê regularmente, décadas depois do frango de Toronto.

Fachada do Rock and Roll Hall of Fame
O padrinho do shock rock, décadas depois do frango de Toronto.

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