Akira: o filme que mostrou ao Ocidente do que o anime era capaz
Para muita gente fora do Japão, anime era sinônimo de desenho infantil até esbarrar em Akira. O filme de 1988 chegou como um soco: violento, ambicioso, lindo de doer e adulto até a medula. Ele não só virou clássico — ajudou a convencer o Ocidente de que animação japonesa podia ser arte séria.
Neo-Tóquio, 2019
A história se passa numa megalópole reconstruída após uma explosão devastadora que iniciou uma terceira guerra mundial. Neo-Tóquio é caótica, desigual e à beira do colapso, varrida por gangues, protestos e experimentos secretos do governo.
No meio disso, dois amigos de uma gangue de motoqueiros: Kaneda, o líder durão, e Tetsuo, o mais novo e inseguro. Um acidente desperta em Tetsuo poderes psíquicos imensos — e incontroláveis.
O autor que controlava cada quadro
Akira nasceu como um mangá monumental de Katsuhiro Otomo, publicado ao longo dos anos 1980. Quando o filme foi feito, Otomo assumiu a direção, algo raro para um autor de quadrinhos.
Esse controle total se vê na tela. Cada plano tem intenção, cada cena de ação é coreografada com precisão. A famosa derrapagem da moto vermelha de Kaneda virou imagem tão icônica que cineastas a recriam até hoje, em homenagens que ganharam o apelido de "Akira slide".
Uma animação que quebrou o orçamento
Akira foi caro de um jeito quase irresponsável para os padrões da época. O filme teve um dos maiores orçamentos da animação japonesa até então, e isso se reflete em cada detalhe.
Onde outras produções economizavam, Akira gastava:
- Dezenas de milhares de desenhos feitos à mão;
- Uma paleta de cores enorme, com tons especiais criados para o filme;
- Luzes de neon e reflexos animados quadro a quadro;
- Movimento de multidões e detalhes urbanos obsessivos.
O resultado tem uma fluidez e uma densidade visual que envelheceram surpreendentemente bem.
Som antes da imagem
Outra ousadia: boa parte dos diálogos foi gravada antes da animação, para que o movimento da boca dos personagens batesse com perfeição na fala. Era o oposto do método comum, em que a dublagem se encaixa depois.
A trilha, do coletivo Geinoh Yamashirogumi, mistura instrumentos tradicionais, percussão e cantos que dão à obra uma aura ritualística. É um som que não se parece com nada do cinema de animação ocidental.
A onda que abriu o mercado
Quando Akira chegou ao Ocidente em fitas e sessões de cinema cult, causou espanto. Era anime, mas com violência gráfica, ambiguidade moral e temas pesados sobre poder, corrupção e juventude perdida.
O filme se tornou porta de entrada para uma legião de fãs ocidentais e ajudou a pavimentar o caminho para que outras obras japonesas fossem levadas a sério lá fora. Sem Akira, a popularização do anime nos anos seguintes teria sido bem mais lenta.
O DNA espalhado pela cultura pop
A influência de Akira está em todo lugar, mesmo para quem nunca viu o filme. Estética cyberpunk, cidades neon chuvosas, motos futuristas, experimentos com crianças e poderes psíquicos.
De Matrix a séries como Stranger Things, passando por clipes, games e moda, ecos da Neo-Tóquio de Otomo aparecem sem parar. É a marca de uma obra que não só envelheceu bem — ela ficou maior do que o próprio gênero que ajudou a definir.
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