← Voltar ao blog
Rock

A Tempestade: a gravação do último disco da Legião Urbana e os dias finais de Renato Russo

Entre janeiro e junho de 1996, num estúdio da Barra da Tijuca, a Legião Urbana gravou o disco que encerraria sua história com Renato Russo. A Tempestade ou O Livro dos Dias chegou às lojas em 20 de setembro daquele ano. Exatamente três semanas depois, em 11 de outubro, o cantor morreu no Rio de Janeiro, aos 36 anos. Ouvido hoje, o álbum soa como uma despedida que pouca gente fora do círculo da banda sabia que estava acontecendo.

Renato Russo, vocalista da Legião Urbana
Renato Russo, vocalista e principal letrista da Legião Urbana

Um segredo guardado desde 1990

Renato sabia que estava doente havia seis anos. No fim de 1990, durante uma internação numa clínica de desintoxicação no Rio, um exame confirmou que ele era portador do HIV.

A partir dali, a Legião mudou de rotina: menos palco, mais estúdio. E Renato pediu sigilo absoluto sobre a própria saúde. O público via um artista cada vez mais recluso, mas não sabia o motivo.

Em 1993, ele chegou a passar por uma nova internação para tratar a dependência química. O Descobrimento do Brasil, lançado naquele ano, foi feito com Renato completamente longe das drogas e do álcool. O disco seguinte não teria a mesma sorte.

Barra da Tijuca, janeiro de 1996

As sessões de A Tempestade aconteceram nos AR Estúdios, na Barra da Tijuca, de janeiro a junho de 1996. A produção ficou a cargo de Dado Villa-Lobos junto com a própria banda.

O cenário era bem diferente do de três anos antes. Renato estava em recaída, e quem acompanhou o período o descreve como muito magro e debilitado.

No estúdio, o clima também pesava. Renato criticava o trabalho com frequência e chegou a dizer a Dado que a única coisa que se aproveitava daquelas gravações era o clique do metrônomo.

Ele havia composto material de sobra — a ideia inicial era um álbum duplo. Renato vetou: tinha medo de que o disco saísse caro demais para os fãs.

Por que quase todo o disco tem voz-guia?

Esse é o detalhe que muda a forma de ouvir o álbum.

Em estúdio, a voz-guia é aquela gravação provisória que o cantor faz para orientar os músicos, com a intenção de regravar tudo depois, com calma. Renato nunca voltou para fazer as versões definitivas.

Com exceção de "A Via Láctea", o que se ouve em A Tempestade são essas primeiras tomadas. O cantor recusou inclusive o conselho de Jorge Davidson, da gravadora, para refazer os vocais.

O resultado é uma voz cansada, às vezes frágil, muito mais exposta do que em qualquer outro disco da Legião.

Ninguém planejou que fosse assim. Mas é por isso que o álbum soa tão cru.

As faixas de um adeus

São 15 músicas e pouco mais de 67 minutos. Algumas que ajudam a entender o disco:

  • "A Via Láctea" — a única com vocal definitivo, e a que Renato queria nas rádios. Virou a mais tocada do álbum.
  • "Dezesseis" — a narrativa longa sobre João Roberto, outra que dominou as rádios.
  • "Soul Parsifal" — parceria com Marisa Monte.
  • "L'Avventura" e "Esperando por Mim" — também ganharam espaço na programação.
  • "Música de Trabalho" — Renato de volta ao comentário social, agora sobre emprego e rotina.
  • "O Livro dos Dias" — a faixa que fecha o disco e completa o título.

Uma canção ficou de fora por decisão do próprio Renato: "Clarisse", que ele considerava pesada demais para entrar naquele álbum.

No encarte, uma frase de Oswald de Andrade parece resumir tudo:

"O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus."

Capa do álbum A Tempestade ou O Livro dos Dias
A Tempestade ou O Livro dos Dias, lançado pela EMI em 1996

Três semanas

A Tempestade ou O Livro dos Dias foi lançado pela EMI em 20 de setembro de 1996. Não houve turnê nem divulgação com a cara de Renato.

Na madrugada de 11 de outubro, por volta de 1h15, ele morreu em casa, no Rio de Janeiro. As causas registradas foram complicações decorrentes da aids: doença pulmonar obstrutiva, septicemia e infecção urinária. Tinha 36 anos e deixava um filho, Giuliano, de 7.

O corpo foi cremado, e as cinzas, espalhadas no Sítio Roberto Burle Marx.

O disco que estava nas lojas havia 21 dias virou, da noite para o dia, um testamento. Vendeu mais de meio milhão de cópias e recebeu disco de platina duplo.

Assista: os bastidores do último disco

O vídeo abaixo conta a história da gravação de A Tempestade e dos últimos momentos de Renato Russo:

O fim da Legião Urbana

Em 22 de outubro de 1996, onze dias depois da morte do vocalista, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá anunciaram o encerramento das atividades da banda. Sem Renato, não havia Legião.

Ainda sairia mais um disco. Em 1997, Dado voltou às sobras das sessões de A Tempestade e montou Uma Outra Estação, com músicas que tinham ficado de fora do álbum anterior.

Mas a despedida de verdade já tinha sido feita em 1996 — com voz-guia, sem retoque, do jeito que Renato deixou.

Legião Urbana: Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá
Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, a formação da Legião Urbana

Leia também